terça-feira, 2 de novembro de 2010

someone who cares - if i fall down.




Veronica caminhava distraída e sem rumo pelas ruas de Londres. Com os fones no ouvido, escutava à sua música favorita mas não prestava atenção na letra. Em sua mente, muitos pensamentos aleatórios a deixava aflita. Se sentia tão estranha. Em um momento queria rir de algo mas no outro queria chorar por algo e entre esses dois sentia um enorme vazio. A sensação de que nenhum sentimento era adequado e que apenas um buraco enorme ocupava grande parte de si. Respirou fundo e entrou em uma livraria apenas para distrair a mente. Olhou vários livros, admirando suas capas mas mesmo assim aquela sensação horrível de vazio e ao mesmo tempo sobrecarga a dominava. 
Sentiu alguém tocar seu braço e então virou-se intrigada.
- Oi, Veronica - Daniel disse, sorrindo.
Veronica sorriu torto. Era seu amigo, uma pessoa boa e gentil que é de sua turma na faculdade. 
- Oi, Daniel. O que faz aqui? - Veronica perguntou confusa e colocou o livro que segurava de volta à prateleira.
- Eu trabalho aqui, lembra? - ele disse com um sorriso divertido. 
- Ah, é mesmo! - Veronica exclamou sem graça. - Bem, eu tenho que ir. Vejo você segunda.
Veronica deu alguns passos em direção a saída, mas antes que cruzasse a porta, a voz de Daniel a fez parar.
- Está tudo bem? - Daniel perguntou preocupado. Havia percebido algo diferente nos olhos de Veronica e em seu sorriso que, na maioria das vezes, era alegre e espontâneo. 
Veronica virou-se para olhá-lo.
- Sim. - mentiu. - Por quê?
- Você parece... diferente - Daniel disse hesitante.
Veronica abaixou a cabeça e quanto voltou a encarar Daniel, forjou um sorriso.
- Está tudo bem. Obrigada por se importar - ela disse, sorrindo agradecida e então saiu.

Ao chegar em casa, tomou uma ducha e depois ligou a tevê. Foi à cozinha preparar algo para comer e depois voltou à sala. Sentou-se no sofá e tentou prestar atenção na televisão enquanto comia alguns biscoitos e bebia um copo de leite. Era tudo o que conseguiria comer aquela noite. E novamente se pegou pensando aleatoriamente. Coisas tanto banais quanto de extrema importância. 
Nostalgia.
Fora esse o sentimento que a atingiu primeiro. Sentiu um nó formar-se em sua garganta e então bebeu um belo gole de leite para tentar desfazê-lo. Mas assim que o desfez, seus olhos se encheram de lágrimas. 
Raiva.
Este fora o sentimento que a atingiu logo depois. Sentiu vontade de arremessar algo contra a tevê que passava um programa estúpido. Colocou o copo de leite sobre a mesinha de centro e abraçou-se à suas pernas, apoiando o queixo em seus joelhos. Queria gritar. 
Dor.
Sentiu uma dor horrível no peito e então deitou-se no sofá. Queria saber o porquê de estar assim. Seu choro só aumentou.
Então o telefone tocou. Veronica levou um tempo para levantar-se e atender. Teve que respirar fundo e pigarrear antes de pegar o telefone, para que sua voz falha não fosse notada. 
- Alô? - ela disse baixo.
- Veronica. Sou eu, Daniel - seu amigo dissera. - Eu liguei para saber se... está realmente tudo bem. 
Veronica ficou calada por alguns minutos.
- Veronica? - Daniel chamou do outro lado da linha.
- Estou aqui. - ela disse e sentiu uma lágrima escapar dos olhos.
Alguém se importava. Alguém naquele maldito lugar se importava com ela.
- Então, está tudo bem? - Daniel insistiu.
- Não - ela disse sincera.
Houve um silêncio súbito. Apenas as respirações de ambos eram ouvida.
- O que aconteceu? - Daniel perguntou, cortando o silêncio.
- Todos sabem o que houve - Veronica disse áspera.
Daniel soltou um suspiro.
- Você sabe que precisa seguir sua vida. Não pode ficar presa à isso - ele dizia.
- Não posso seguir minha vida. Eu o amava, droga! - Veronica gritou ao telefone.
Então o silêncio voltou.
Ela estava chorando de novo. Era disso que precisava durante todo esse tempo. Já havia se passado seis meses, mas só agora ela conseguira chorar de verdade. Seu namorado morrera de leucemia a seis meses e só agora ela estava se lamentando de verdade. Não havia conseguido antes. Não conseguiu porque não queria acreditar que estava acontecendo. Mas só agora caiu na realidade e por isso toda aquela sensação estranha. Por isso os sentimentos confusos e o extremo vazio. 
- Me desculpe - Veronica pediu em um sussurro.
- Não se desculpe, Veronica. Chorar é o melhor para você agora. Faça isso até sentir-se melhor.
Veronica soluçou. E depois de mais um tempo em silêncio, ela cortou o mesmo.
- Você ainda está aí? - perguntou.
- Sim, eu estou - Daniel respondeu cauteloso e paciente.
- Por quê?
Daniel não respondeu por um bom tempo, e antes de responder respirou fundo.
- Porque eu me importo. Eu me importo com você.
- E por que se importa? Por que não desliga e vai fazer o que gostaria de estar fazendo agora? - Veronica dizia entre soluços.
- Porque sou seu amigo, Veronica. E o que eu gostaria de estar fazendo agora eu já estou fazendo. Estou sendo seu amigo. 
Mais uma vez o silêncio pairou sobre a ligação.
- Obrigada - Veronica disse de repente.
- Não agradeça - Daniel disse. - Já se sente melhor?
- Sim. 
- Então vou desligar agora. Me ligue se precisar de qualquer coisa. - ele disse enfatizando as últimas palavras.
- Ok. Obrigada mesmo, Daniel.
- Fique bem. - ele disse e então desligou.
Veronica ficou com o telefone no ouvido por alguns segundos e então colocou-o no gancho. Soltou um suspiro pesado e voltou a atenção para a televisão.
Alguém se importava. Ela tinha alguém que estava em algum lugar pensando se ela está bem ou não. E isso a fez sorrir. 
O resto da noite para ela fora normal. Sem choros, sem pesadelos. Apenas ela, o pensamento de que alguém se preocupa com ela e um sorriso no rosto ao adormecer.

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